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domingo, 13 de maio de 2012

QUEM É QUEM? (Dr. Seixas)




DOUTOR JOSÉ PORDEUS RODRIGUES SEIXAS – 
um pouco de sua vida e sua obra


Antonio Nogueira da Nóbrega


José Pordeus Rodrigues Seixas nasceu no atual Distrito de Umari,   município de São João do Rio do Peixe, a 14/05/1843, onde viveu boa parte de sua vida, e aí faleceu a 14/02/1910, aos 66 anos de idade, tendo sido seu corpo sepultado no cemitério desse distrito. Era filho do coronel José  Pordeus Rodrigues Seixas e Rosa Ursulina da Mota Seixas.
Diplomou-se em Direito, no ano de 1888, pela Faculdade de Recife, (PE). Logo seguida, foi nomeado promotor público de Quixeramobim, sendo depois transferido para Lavras e Pereiro (CE), onde ocupou o mesmo cargo. Serviu ainda à justiça em Barra do Jardim e Porteiras (CE), na qualidade de juiz substituto. Desta cidade, mudou-se para Sousa (PB), por volta de 1892, onde exerceu também o cargo de juiz substituto. Depois, foi nomeado juiz municipal de São João do Rio do Peixe (PB), cidade da qual foi seu primeiro juiz formado. Foi também o primeiro juiz municipal de São José de Piranhas, nomeado a 28/01/1901. Assumiu suas funções, nesta cidade, a 25 de abril do mesmo ano. Aposentou-se em de 1905. Então, livre das lutas forenses, foi cuidar de sua fazenda Umari, dedicando-se à agropecuária, além de continuar compondo seus versos.
Doutor Seixas, como era mais conhecido, casou-se a 07/09/1865 com sua prima carnal, Tereza Elvira Maria Seixas, filha de Joaquim Monteiro de Oliveira e Antônia Maria do Carmo Monteiro Seixas,  consórcio do qual nasceram treze filhos.
         Umari – em cujo cemitério repousam seus restos mortais – terra que tanto amou – ele descreveu seus encantos através dos versos de uma composição poética, intitulada “UMA TARDE NO UMARI”.

UMA TARDE NO UMARI

"Ah! se eu fora poeta
P'ra minha terra cantar!
Ah! se eu fora pintor
P’ra suas cores pintar!

É verdade! Eu cantaria
Muitas, mil trovas de amor;
Com pincel descreveria,
Quanto faria um pintor!

Eu cantaria por certo
Uma tarde no Umari,
Uma tarde desta terra,
Desta terra, onde nasci.



Mas, poeta eu não sou,
Pintor eu nunca hei de ser,
E como assim sem musa
A poderei descrever.


Era uma tarde de abril
Tudo era riso, encantava!
Berravam os bezerrinhos,
Bela harmonia soava!
Além no páteo, na relva,
O gado, que vem da selva,
Escaramuçava, corria!
Depois as lutas horríveis
Entre os touros mui temíveis
Era então o que se via!


As vacas, que já bem fartas
Vinham em busca do curral
Traziam nódoas na pele
Do imenso matagal!
Ao entrarem amorosas
Pelas filhinhas mimosas
Mugido terno soltavam
E ao tempo, que as lambiam
Nas gordas tetas batiam
Elas que ali se criavam!

As ovelhas, que chegavam
Já cansadas de pastarem,
Afagavam tenros filhos
Dando as tetas p'ra mamarem!
Quando isso sucedia,
De outro lado se via
A brincarem seus filhinhos,
A solfejarem as aves
Seus ternos cantos, suaves,
Em torno dos ricos ninhos!

Era sem dúvida belo
Ver-se tanta poesia,
Ouvir-se o canto das aves
Com tanta graça e harmonia
É certo, por qualquer lado
Se via um quadro talhado
Para o poeta pintar
Aqui o gado, as flôres
Que misturavam em odores
Com ternos cantos de amor.

Contemplando esse conjunto
Não ser poeta sentia!
Por não ser também pintor
Quanto eu me afligia
Vendo o saltar do cordeiro
Que chegava no terreiro,
Ao pé do alpendre, onde estava;
Ouvindo belos trinados
Dos rouxinóis afinados
Não ter musa, lamentava!

Disse somente:
................o sertão
É terra da poesia
Tudo que nele se vê
Não só encanta, extasia!

Os encantos, que aqui tem
Não existem na cidade,
Aqui só reina inocência,
Aqui não vê-se maldade.

Aqui a vida é doce
Não deixa a desejar
Aqui se planta, se cria,
Aqui tem tudo a fartar!

Aqui há sempre abundância
A vida é bem aprazível
Aqui se ouve o canário,
Aqui há touro invencível!

Aqui há tudo, que é bom
Lá na cidade não tem
Cordeirinhos para saltarem
Rouxinóis, que cantam bem!


Lá só vêem-se enredos,
Intrigas mil, confusão
Ali não pode se ter
Puro e livre o coração!




Flôres mimosas não há,
Como as silvestres daqui,
Lá não há, que cá não tenha
Que não haja no Umari!

Lá não reina inocência
Não se conhece amizade,
Aqui a vida é outra
Qual não é lá na cidade.

Desejo, ó Deus, esta vida
Com tranquilo coração
Quero morar na minha terra
Quero morrer no sertão!

Disse eu somente isto!
Porque mais eu não podia;
Mas, estava arrebatado
Por ver tanta harmonia!
Da ave ouvindo os trinados
Ouvindo o berro dos gados
E o ladrar do meu cão;
Precisei cantar as flôres
De falar dos seus amores
Tive grande precisão.

Ah! se eu fora poeta
P'ra minha alma sossegar!
P'ra falar em minha terra
Eu precisava cantar!
Mas, se musa não tenho,
Se me falta o engenho
Para alguns versos fazer;
Me consolo com a sorte
E, antes que venha a morte
Venho este culto render.

Vamos publicar mais duas composições de sua vasta produção poética. Antes,  porém, gostaríamos de falar um pouco de Dr. Seixas como político. Em 17/01/1882, quando ainda era acadêmico de Direito, fora eleito deputado provincial, pelo Partido Conservador, diretório do município de Sousa, ao qual era filiado há algum tempo, cuja fundação datava de 1838. Mas, sua eleição fora anulada, razão pela qual, muito indignado com a atitude de seus adversários políticos, publicou um longo e violento artigo no “Jornal da Paraíba”, órgão de seu partido, edição de 28/10/1882, através do qual não só dava uma satisfação ao seu eleitorado, mas também levava ao conhecimento da opinião pública brasileira as perseguições de que fora vítima, promovidas por  seus inimigos do  Partido Liberal.
          


Para Tereza Elvira Maria Seixas, sua esposa, que, na intimidade, era tratada por Tetê, compôs este lindo soneto, intitulado  “A TETÊ”:

“Nós somos duas almas bem unidas
E seremos perfeitamente juntos assim,
Temos, pois, nossas preces parecidas,
Por ti eu calo, rezas tu por mim.

Mas a santa canção de nosso ninho
Eleva-se por seres tu tão pura,
E, como a suave voz de teu caminho,
Vem clarear a minha vida escura.

Assim vivemos neste triste mundo:
Rezas tu, com respeito, mui profundo,
Quando tristonho baixo os olhos meus.

Nas orações, pois, sempre me aprofundo,
Dizendo então que como um vagabundo
Embora, assim, sou teu e sou Por Deus!”   
           
Bastante idoso, mas completamente lúcido, e já antevendo o ocaso da vida, Dr. Seixa compôs esta linda poesia:

“A morte afronta ao plebeu, ao pobre,
Ao rico, ao nobre, ela traz terror;
Mas quem, na vida, não teve sorte
Não teme a morte e nem traz ela a dor.

Assim sou eu, pois, não temo a morte,
Abraço a sorte que me der o Deus;
Confio Nele e me dará perdão,
Ditoso então gozarei os céus.

Nada mais quero do ingrato mundo,
Onde aí, profundo só vive a dor;
Nada mais quero, depois da vida,
Por despedida quero gozar.

No frio túmulo que me guardar,
Façam lavrar estas minhas queixas:
Se, no epitáfio, me der renome,
Escreva o nome do pobre SEIXAS.” 

(As poesias foram extraídas do livro de SEIXAS, Wilson. Os Pordeus no Rio do Peixe. João Pessoa-PB: Universal, 1972.)

             No dia 14/02/1910, como já foi dito, faleceu Dr. José Pordeus Rodrigues Seixas, aos 66 anos de idade, na sua Fazenda Umari, deixando, na viuvez, a senhora Tereza Elvira Maria Seixas (que iria falecer 20 anos depois, em 1930) e, na orfandade,  uma grande prole, que o assistiram nos momentos derradeiros de sua vida.                  
             
Referência:
SEIXAS, Wilson. Os Pordeus no Rio do Peixe. João Pessoa-PB: Universal, 1972.)
                                                                                                 
                                                                                                    

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